Dores, desidratação e noites sem dormir: os desafios físicos da temporada junina

Com ensaios, apresentações que atravessam a madrugada e pouco tempo para descanso, os brincantes do São João maranhense enfrentam uma verdadeira maratona física durante a temporada junina. Para manter o ritmo e evitar lesões, cuidados com alimentação, hidratação e recuperação tornam-se essenciais.

Enquanto o público acompanha o brilho das indumentárias e a energia das apresentações nos arraiais, quem está dentro das brincadeiras vive uma rotina intensa de esforço físico. Durante o São João do Maranhão, brincantes conciliam meses de ensaios com uma sequência de apresentações que se estendem pela madrugada, enfrentando cansaço acumulado, poucas horas de sono, dores musculares e risco de desidratação.

Integrante do Boi da Floresta de Mestre Apolônio e da Companhia Estrela Junina, Léo Fabiano participa ativamente da temporada junina há quatro anos e afirma que o preparo exige planejamento e resistência. Segundo ele, mesmo mantendo uma rotina de atividades físicas, as dores são inevitáveis diante da extensa agenda de apresentações.

Após cada espetáculo, o brincante adota medidas para minimizar os impactos no corpo, como compressas de gelo, mudanças na alimentação e tentativas de recuperar o sono entre um compromisso e outro. Para ele, fatores como o peso das indumentárias, o calor, horas seguidas de dança, privação de sono e desidratação são os principais responsáveis pelo desgaste físico.

A rotina intensa também é vivida por Larissa Sampaio, integrante da Companhia Barrica. Brincante desde a infância e dançarina desde 2018, ela divide o tempo entre trabalho, estudos, família e os compromissos com o grupo, que ocupam praticamente todas as noites durante o período junino.

Segundo Larissa, as regiões mais afetadas pelo esforço são as pernas, os pés e a lombar, consequência das horas dançando, do tempo em pé e da variedade de ritmos apresentados durante as performances.

Para a coreógrafa, dançarina e coordenadora-geral do Boi da Floresta, Talyene Cruz Melônio, o desgaste começa antes mesmo das apresentações. Ela explica que o cansaço acumulado dos ensaios faz parte da preparação e que o espetáculo representa a celebração de todo esse trabalho.

Talyene ressalta que há uma preocupação constante com a saúde dos integrantes. Sempre que algum brincante apresenta sinais de exaustão ou lesão, a atividade é interrompida imediatamente. Além disso, a organização procura limitar o calendário a, no máximo, quatro apresentações por noite, com intervalos entre elas. Ainda assim, muitos participantes integram mais de um grupo, o que aumenta significativamente a sobrecarga física.

O médico Robert Pardo Guibert, especialista em Saúde da Família e Comunidade e vice-diretor da Companhia Estrela Junina, destaca que o esforço exigido dos brincantes é comparável ao de atividades físicas de alta intensidade. Também integrante da companhia há cinco anos, ele afirma que o preparo realizado durante os ensaios é fundamental para suportar as apresentações.

De acordo com o especialista, as lesões mais frequentes atingem os membros inferiores (especialmente joelhos, tornozelos, pés e pernas) em razão do esforço repetitivo e do longo período de dança. Além disso, são comuns casos de fadiga, falta de ar, taquicardia, hipoglicemia e desidratação.

Outro ponto de atenção é a alimentação. Segundo Robert Guibert, alguns brincantes deixam de se alimentar adequadamente para manter o figurino ajustado ao corpo, o que pode provocar queda dos níveis de glicose, tonturas e até desmaios. Entre os sinais de alerta estão boca seca, suor excessivo, náuseas, fraqueza, desorientação e, em casos mais graves, síncope.

Para reduzir os riscos durante a temporada, o médico recomenda manter a hidratação antes, durante e após as apresentações; não pular refeições, especialmente o café da manhã; priorizar alimentos leves e bem conservados; realizar alongamentos antes dos ensaios; utilizar calçados fechados e confortáveis; respeitar os períodos de descanso; aplicar gelo em pequenas lesões; procurar atendimento médico em caso de tonturas, desmaios ou dores persistentes e evitar participar das apresentações quando não estiver em boas condições físicas ou emocionais.

Embora o público veja apenas o espetáculo nos arraiais, os bastidores revelam uma rotina de preparação intensa. Para que a festa aconteça até o fim da temporada, cuidar da saúde e do condicionamento físico torna-se tão importante quanto o talento apresentado na arena.

Compartilhe essa notícia:

Mais Notícias