Zabumba resiste ao apagamento e reafirma sua força no Bumba Meu Boi do Maranhão

Com raízes afro-indígenas e papel fundamental na formação do Bumba Meu Boi do Maranhão, o sotaque de zabumba enfrenta hoje o desafio da invisibilidade diante da crescente valorização de atrações comerciais nos festejos juninos. Mestres e pesquisadores alertam para a necessidade de políticas públicas de salvaguarda, valorização econômica e preservação da tradição, reconhecida como patrimônio cultural da humanidade.

A batida grave dos tambores da zabumba atravessa gerações e carrega parte essencial da identidade cultural maranhense. Considerado um dos sotaques mais antigos do Bumba Meu Boi, o ritmo mantém viva a ancestralidade afro-indígena da manifestação, mas enfrenta hoje dificuldades para conquistar visibilidade nos arraiais e programações culturais.

Reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade desde 2019, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi reúne diferentes sotaques (entre eles matraca, orquestra, baixada, costa de mão e zabumba) cada um marcado por instrumentos, ritmos e formas próprias de brincar o boi.

O sotaque de zabumba se destaca principalmente pela forte presença da percussão, com tambores que produzem uma sonoridade mais cadenciada e ritualística. Historicamente ligado às comunidades negras e periféricas, o estilo preserva elementos ancestrais que ajudam a contar a história da formação cultural do Maranhão.

Apesar da importância histórica, representantes da cultura popular apontam que grupos tradicionais têm perdido espaço nos grandes arraiais, muitas vezes dividindo atenção com atrações nacionais e estruturas voltadas ao entretenimento comercial. Pesquisadores e brincantes avaliam que a lógica atual acaba colocando manifestações centenárias em posição secundária dentro das próprias festas juninas do estado.

A preocupação com a preservação da tradição motivou grupos culturais a se mobilizarem recentemente em defesa do patrimônio do Bumba Meu Boi. Em São Luís, representantes dos cinco sotaques participaram da elaboração de uma Carta Aberta pedindo valorização econômica dos grupos, fortalecimento das ações de educação patrimonial, incentivo aos festivais tradicionais e proteção dos sotaques em risco de desaparecimento, como a zabumba e a costa de mão.

Além da disputa por espaço, os grupos também enfrentam dificuldades financeiras, redução do número de apresentações e falta de políticas permanentes de incentivo cultural. Mestres da tradição alertam que a continuidade dos saberes depende da transmissão entre gerações e da criação de condições para que os grupos permaneçam ativos durante todo o ano.

Projetos de mapeamento cultural e circulação artística têm buscado ampliar a visibilidade do Bumba Meu Boi e de seus diferentes sotaques. Iniciativas como o “Caminhos da Boiada” utilizam tecnologias digitais para registrar grupos tradicionais do Maranhão, enquanto caravanas culturais levam apresentações para outras cidades do país, reforçando o valor simbólico da manifestação.

Mais do que uma expressão artística, a zabumba representa memória, resistência e identidade coletiva. Em meio às transformações do São João maranhense, brincantes seguem defendendo que preservar o sotaque é também preservar a história de um povo que fez da cultura popular um patrimônio reconhecido mundialmente.

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